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forma que anteriormente expus. Mostraram-se quase indignados e
disseram-me “que para eles não restava a menor dúvida de que se tratava
de um milagre, pois que eles já anteriormente, no dia 13 de setembro
último, ali tinham estado e tinham presenciado no sol extraordinários
fenómenos luminosos, precisamente à hora indicada pelas pastorinhas;
que o clero não estava bem informado e que, se eu duvidava, que
esperasse”. Como insistir seria inconveniência, calei-me, mas fiquei
absolutamente convencido de que nada veria. Recordei então, como já
por várias vezes tinha recordado aquele princípio de Gustave Le Bon
que se resume à corrente hipnótica que a domina. Era preciso precaver-
-me, não me deixar influenciar. Esse meu amigo, tirando o relógio disse-
-me: faltam cinco minutos, à uma hora olhe para o sol, foi a hora anunciada
pelas pastorinhas, depois me dirá.
Isto surpreendeu-me pois que para onde eu tencionava olhar e para
onde eu julgava que todos olhariam era para o local onde se encontravam
as pastoras. Constava-me que elas tinham afirmado que nesse dia se
daria uma coisa que depois disso ninguém poderia duvidar. O céu nesse
momento estava duma cor plúmbea. A chuva tinha parado. O sol não se
via, encoberto pelas nuvens, e ninguém diria que ele tornaria mais a
aparecer nesse dia tão chuvoso e tão desabrido. À uma hora em ponto,
ouço um grande clamor. Esses meus amigos gritam-me: olhe, olhe, mas
eu a princípio apenas via nuvens correndo ligeiras deixarem o sol a
descoberto. De repente vejo uma orla intensamente cor-de-rosa,
circundar o sol que se assemelhava a um disco de prata fosca, como já
alguém disse, ao mesmo tempo que me dava a impressão de que este se
deslocava da sua primitiva posição. Nuvens diáfanas, vaporosas, um
tanto roxas, um tanto alaranjadas, perpassavam. Em vários pontos da
linha do horizonte, contrastando com a cor plúmbea do céu, eu vi também
manchas cor-de-rosa e amarelas. O clamor cada vez era maior. Isto
não durou segundos: durou talvez minutos. Ao observar estas
manifestações, que não duvidei um momento fossem devidas à Infinita
Omnipotência de Deus, uma indiscritível impressão se apoderou de mim.
Sei apenas que gritei, creio, creio, creio, e que as lágrimas caíam dos
meus olhos, maravilhado, extasiado, perante essa demonstração do Poder
Divino. Sei também que não senti a menor sombra de receio ou terror.
Se não fosse católico, nesse momento ter-me-ia convertido. Lembro-
me também que não ajoelhei mas a maior parte das pessoas caíram de
joelhos sem se importarem com o enorme lamaçal. Então estes fenómenos
escapam à previsão da ciência e não escapam à previsão de umas
Doc. 32 1917-12-30