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Escrupulosamente, conservava-se na espetativa, alheio a tudo, como
alheio a tudo se tem conservado e conserva o clero deste concelho.
Pela minha parte pensei então que a imaginação das crianças podia deixar
antever toda a possibilidade de uma visão irreal, meramente subjetiva.
Podia também tratar-se de uma mistificação de intuitos espetaculosos
ou lucrativos e por isso entendi que era dever não me fazer eco desses
boatos que visavam um assunto tão grave e tão melindroso. Com o
insucesso só a Nossa Religião poderia perder. Por isso, quando se falava
no caso, de aí em diante, mostrei sempre mais descrença do que
espetativa. Foi nestas disposições de espírito que eu, no dia 13 de
outubro, próximo passado, pela primeira vez me dirigi para o local das
aparições. Era curioso; não era um romeiro. Na véspera e antevéspera
desse dia, e mesmo durante a noite, eu vi uma enorme multidão atravessar
esta vila em direção à Fátima. De longes terras vinham ranchos de
camponeses, na sua maior parte descalços, que cheios de fé e devoção
atravessavam esta terra, entoando cânticos religiosos como o “Bendito”
e o “Queremos Deus”. Alguns com quem falei já vinham de catorze
léguas de distância, mortos de fome e de fadiga, mas mostravam-se
esperançados e contentes. Estes eram por certo os romeiros. Veículos
de toda a espécie, desde a carroça desconjuntada até à “limusine”
perfumada, atravessavam também a terra numa fila interminável. Estes
últimos eram talvez na sua maior parte os curiosos, os “mirones”. Tive
informações de que nas estradas de Torres Novas e de Leiria a
concorrência foi igual. Como atrás deixei dito, no dia 13 parti para o
local das aparições, logo de manhã, às oito horas, aproximadamente.
Acompanhavam-me meus irmãos António e Fernando.
Logo à saída daqui, a chuva começou caíndo copiosamente, tornando
as estradas num contínuo lamaçal. O vento soprava rijo, principalmente
nas alturas da serra da Fátima. Pelas estradas continuava ainda enorme
concorrência. Passámos ao lugar da Fátima e seguimos pela estrada
que liga este lugar com a vila da Batalha. A chuva continuava caindo
torrencialmente. À distância de um quilómetro, aproximadamente, vimos
uma multidão de muitos milhares de pessoas que de preferência se
aglomerava nos outeiros. Seriam trinta mil pessoas, seriam cinquenta
mil? Ninguém o poderia dizer ao certo. Parámos. Centenas de carros e
automóveis, pejavam por completo a estrada enlameada. No fundo do
vale, por entre a multidão, consegui divisar uns toscos postes de madeira
clara que se assemelhavam a um trapézio, os quais eram encimados por
uma pequena cruz, segundo depois observei de mais perto. A chuva era
agora menos intensa. O sol continuava escondido entre grossas nuvens
pardacentas. Em volta do trapézio a que me referi, aglomerava-se um
Doc. 32 1917-12-30