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azul aqui e acolá, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de
céu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não
empanavam a luz (que não feria) do sol dando a impressão facilmente
compreensível e explicável de passar por detrás, mas, por vezes, esses
flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma
tonalidade rosa ou azul diáfana.
Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro,
labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem um
deslumbramento na retina, que cegasse.
Este fenómeno com duas breves interrupções em que o sol bravio
arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram
a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.
Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a
cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa
velocidade arrebatada.
De repente ouve-se um clamor como que um grito de angústia de
todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação,
destaca-se do firmamento e sanguínio avança sobre a terra ameaçando
esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de
impressão terrífica.
Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever,
houve na atmosfera coloridos cambiantes. Não posso precisar bem a
ocasião porque já lá vão dois meses passados e eu não tomei notas.
Lembro-me que não foi logo no princípio e antes creio que foi para o
fim.
Estando a fixar o sol notei que tudo escurecia à minha volta. Olhei o
que estava perto e alonguei a vista para o largo até ao extremo horizonte
e vi tudo cor de ametista. Os objetos, o céu e a camada atmosférica
tinham a mesma cor. Uma carvalheira arroxeada que se erguia na minha
frente lançava sobre a terra uma sombra carregada. Receando ter sofrido
uma afeção da retina, hipótese pouco provável porque dado este caso
não devia ver as coisas em roxo, voltei-me, cerrei as pálpebras e retive-
-as com as mãos para intercetar toda a luz. Ainda de costas abri os
olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da
mesma cor roxa.
A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi o eclipse que em
Viseu, onde estava, foi total. À medida que a lua marcha a esconder o
sol, a luz vai-se acinzentando até que tudo se torna baço e negro. A vista
alcança um pequeno círculo para lá do qual os objetos se vão tornando
Doc. 29 1917-12-18