150 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada
que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para se
nesta altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho
nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo de duração não posso
afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o
fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda
e uma terceira vez. Das três vezes, e sobretudo da última, destacaram-
-se nitidamente os fustes esguios na atmosfera cinzenta.
Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de
fumo mas convencido fiiquei de que eram produzidas por algum turíbulo,
não agitado, em que queimava incenso. Depois pessoas dignas de fé
afirmaram-me que era de uso produzir-se o acontecimento no dia 13
dos cinco meses anteriores e que nesses dias, como neste, nunca ali se
queimara nada nem se fizera fogo.
Continuando a olhar o lugar da aparição numa espetativa serena e
fria e com uma curiosidade que ia amolecendo porque o tempo decorrera
longo e vagaroso sem que nada ativasse a minha atenção, ouvi o bruhaha
de milhares de vozes e vi aquela multidão, espraiada, pelo largo campo
que se estendia a meus pés, ou concentrada em vagas compactas, em
redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham
as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergira os desejos
e ânsias e olhar o céu do lado oposto.
Eram quase duas horas.
O sol momentos antes tinha rompido ovante, a densa camada de
nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente. Voltei-
-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante
a um disco de bordo nítido e aresta viva luminosa e luzente mas sem
magoar.
Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer,
de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, ativa e rica, e com
cambiantes, tendo como que o oriente de uma pérola. Em nada se
assemelhava à lua em noite transparente e pura porque se via e sentia-se
ser um astro vivo. Não era como a lua esférica e não tinha a mesma
tonalidade nem os claros-escuros. Parecia uma rodela brunida cortada
no nácar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia
barata. Os meus olhos viram assim. Também se não confundia com o
sol encarado através de nevoeiro (que aliás não havia àquele tempo)
porque não era opaco, difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor e
desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta como uma tabela
de jogo.