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Doc. 29
1917-12-18
Testemunho de José Maria de Proença de Almeida Garrett1 sobre o fenómeno
do sol, ocorrido em Fátima no dia 13 de outubro de 1917.
Publ.: DCF, III-1 - Doc. 345
Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a
verdade, o que vi em Fátima no dia 13 de outubro de 1917.
As horas a que me referirei são as que nessa época marcavam
oficialmente o tempo segundo a determinação do governo que unificara
a nossa hora com a dos países beligerantes. Faço isto para maior verdade
pois me não era fácil designar com precisão o momento em que o sol
alcançou o zénite.
Cheguei ao meio dia. A chuva que desde manhã caía miúda e
persistente, tocada de um vento agreste, prosseguia, irritante, na ameaça
de querer tudo liquifazer. O céu baixo e pesado tinha uma cor pardacenta
prenhe de água, prenúncio de chuva abundante e de longa duração.
Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automóvel e um pouco
sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter-
-me ao lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado.
Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes que uma tosca
cruz encimava vendo distintamente em redor deles o largo círculo de
gente que, com os guarda-chuvas abertos, parecia um vasto sobrado
de broquéis.
Pouco depois da uma hora chegaram a este sítio as crianças a quem
a Virgem (garantiam elas) marcara lugar, dia e hora da aparição. Ouviam-
-se os cânticos entoados pelo povo que as cercava.
Numa determinada altura esta larga massa, confusa e compacta,
fechou os guarda-chuvas e descobriu-se num gesto que devia ser de
humildade ou respeito mas que me deixou surpreso e admirado porque
a chuva, numa continuidade cega, molhava agora cabeças, encharcava
e ensopava. Disseram-me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar
na lama, tinha obedecido à voz de uma criança.
1 Filho de Gonçalo Xavier de Almeida Garrett e de Maria Joaquina Proença Almeida
Garrett.
Doc. 29 1917-12-18