144 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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ele valha ou valesse, nunca poderia, ou antes, nunca deveria valer o
suficiente para comprar a consciência de quem preza a própria dignidade
e conhece as responsabilidades e os deveres que essa mesma dignidade
impõe.
Isto, cidadãos, é uma miserável tentativa de retrocesso, no intuito de
mergulhar novamente o povo português nas densas trevas só próprias
de tempos ominosos que se foram para não mais voltarem.
A República e os cidadãos que têm a seu cargo a tão nobre quão
espinhosa missão de a dirigirem e de a fazerem trilhar à senda gloriosa
da Civilização e do Progresso, não têm o direito de consentir na
bestificação do povo pelo fanatismo e pela crendice, pois isso seria,
para ela e para eles, uma falta imperdoável ao cumprimento do seu
primordial dever, não só para com a Pátria, mas para com a Humanidade
em geral.
É, pois, dever indeclinável de todos nós reclamar dos poderes
públicos, enérgicas e imediatas providências que desde já ponham ponto
final nessa especulação abusiva com que a reação pretende fazer
retrogradar o povo ao medievalismo.
Não devemos, porém, esperar tudo dos poderes públicos, à laia dos
que, esperando tudo da hipotética divina providência, para nada contam
com o próprio esforço, e aos quais é aplicável, com toda a propriedade,
o velho aforismo: –“Fia- te na Virgem e não corras, e verás o tombo
que levas”.
Temos, portanto, que, sem pôr de lado as providências que dos
poderes públicos reclamamos, contar igualmente com o nosso próprio
esforço, que servirá também de esteio e de apoio aos governantes para
que possam honradamente desempenhar-se da missão que lhes incumbe.
Qual a forma de cooperar com aqueles de quem reclamamos
providências para a consecução do que lhes exigimos? Por meio de
uma propaganda intensiva e tenaz, levando pela persuasão ao espírito
dos nossos concidadãos, a luz brilhante da Verdade, da Razão e da
Ciência, convencendo-o de que nada pode alterar as leis da natureza,
de que os pretensos milagres não passam de balelas miseráveis
destinadas a abusar da credulidade filha da ignorância, restos de uma
secular educação fradesca, muito difícil, mas ainda assim possível de lhe
arrancar do espírito.
Eliminem os mais ilustrados, gradualmente, do cérebro dos que o
não são ou dos que o são menos, a deletéria e embrutecedora crença
no sobrenatural, e ter-se-á dado um grande passo para que cesse de