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agredidos, e até assassinados, pelo horrível crime de se não descobrirem
à passagem de uma dessas carnavalescas cegadas, a que é moda tratar
pela alcunha de procissões, e que melhor seria que as autoridades
administrativas não tivessem a faculdade comprometedora e perigosa
de permitir.
Vemos isto tudo e muito mais, cuja enumeração não cabe nos estreitos
limites de um manifesto como este.
Mas, como se tudo isto fosse pouco, a muito mais se levou o
descaramento na perniciosa propaganda reacionária. Agora é ao próprio
milagre que se recorre para embrutecer o povo pelo fanatismo e pela
superstição.
Que vem a ser um milagre? Nada mais do que uma contravenção às
leis imutáveis da natureza, muito mais grave do que a transgressão de
uma postura municipal, e por isso mesmo muito mais digna de castigo
do que de veneração.
Todavia houve quem, conjugando gananciosíssimo com espírito
fanatizador, arranjasse, com cenário esplendoroso em que o luxo
espaventoso do automóvel se casava hibridamente com modéstia da
carriola aldeã e com a humildade do peão, uma comédia indecorosa
que há dias levou milhares de pessoas a assistir, em Fátima, à exibição
de uma fita ridiculamente fantasiosa em que se incutia no espírito do
povo ingénuo a sugestão coletiva de uma suposta aparição da virgem
mãe de Jesus de Nazaré a três crianças sugestionadas ou industriadas
para servirem de comparsas a essa torpe e vergonhosa especulação, a
um tempo mercantil e clérico-reacionária!
Como, porém, não bastassem as tolas declarações dos pobres petizes
a quem a tal virgem aparecia e falava sem que mais ninguém a visse e
ouvisse, inventou-se quem visse o sol, a determinada hora de 13 de
outubro de 1917 – no 8º aniversário do assassínio de Francisco Ferrer,
isto é, em pleno século XX, e não em iguais dia e mês de 1917 –,
dançar o fandango ou o chifarote com as nuvens!
E houve ainda mesmo quem desse a essa patranha indecorosa a
lanterna luminosa da grande publicidade, assumindo desse crime a
responsabilidade quem, pela sua ilustração, pela sua inteligência, pelos
seus especiais conhecimentos em matéria teológica e pelas suas tradições
brilhantes de outra lanterna bem diferente, não tinha o direito de se
prestar a tão repugnante papel!
Não queremos entrar aqui em dissertações doutrinárias a respeito
do valor ou não valor do dinheiro, porque não é essa a missão destas
Doc. 27 1917-12-02