140 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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conduzisse a um lugar onde pudesse tratar-se, o seu estado causou-me
aflição. Lembrei-me de lhe fazer uma massagem sobre a pleura, o que
aceitou; mas estava tão fria, tão molhada, que receei que nada valesse.
Confesso que já então nenhuma esperança me restava de ver o
milagre. Como o local era ainda distante da estrada, viemos até lá à
procura de alguém que por caridade nos cedesse um lugar em automóvel
ou carro, em que pudesse vir a minha amiga, pois receava bem que não
aguentasse o caminho, tendo de fazer novamente a viajem a pé.
Na estrada onde chegámos com as saias cobertas de barro vermelho,
nenhum automóvel ou carro nos dispensou um lugar nem pago nem por
favor.
Era grande a nossa impressão de desânimo, quando, de repente, se
ouve de todos os lados: Milagre! Olhem o sol! Parara como por encanto
a chuva; fecharam-se os chapéus; sentiu-se um calor como se
entrássemos numa estufa aquecida, e começou a vêr-se o disco do sol,
a perceber--se claramente na camada pardacenta que corria todo o
céu. O calor aumentava, e o sol parecia descer, descer cada vez mais,
apresentando novos e variados cambiantes. Vimos como que um véu
prateado, com forma arredondada como se fosse a lua cheia; pouco
depois passava para o roxo vivo, depois para o vermelho, depois para
o verde-esmeralda e tomava finalmente a cor primitiva.
Ouviam-se gritos de todos os lados, quando se destacava do sol
como que uma forma branca de neve, brilhante, sem ferir a retina, vindo
para nós, voltando de novo ao sol, e por fim escondendo-se a terceira
vez entre as nuvens. Todos choravam e de muitas bocas se ouviam preces,
súplicas, atos de fé.
A pequena Lúcia disse que Nossa Senhora lhe pedira que fizessm ali
uma capela com a invocação da Senhora do Rosário; que a guerra ia
terminar; que os soldados portugueses em breve regressariam a suas
casas; que se unissem os portugueses e fizessem penitência, pois Deus
estava cansado de tantas ofensas; que rezassem o Rosário, a fim de
evitar os castigos que pesariam sobre Portugal, se os portugueses se
não emendassem.
Para maior satisfação nossa, depois da alegria inexprimível, da
consolação de havermos presenciado o grande milagre, tivemos a boa
fortuna de encontrar lugar num automóvel que do Luso tinha levado
meus primos Jaime Forjaz de Serpa Pimentel e esposa, transportando-
-nos assim a Vila Nova de Ourém, onde umas senhoras caritativas nos
emprestaram roupas para substituirmos as que trazíamos e que