134 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
meses e ainda no próprio dia.
Coincidência?
Mas não será admirável e surpreendente semelhante coincidência de
um facto com tanta antecedência e firmeza anunciado?
Os factos produzidos na Fátima tiveram por teatro lugares públicos,
por espetadores, pessoas de todas as condições sociais, multidões
inumeráveis atraídas ali por três crianças de rudeza quase selvática,
inimigos numerosos e encarniçados.
E contudo, se nem todos se confessaram crentes, todos se mostraram
rendidos perante o poder que tal maravilha operava.
Ao maior número, sem estudo, sem ciência, o sobrenatural impôs-se
com uma convicção inabalável, que é a certeza mística, que só exige a
boa fé e que leva o homem reto e de são juízo a exclamar: Digitus Dei
est hic.
Por isso as línguas humanas, órgãos misteriosos da verdade, deram
um nome significativo ao ato pelo qual Deus exerce a sua soberania
sobre a natureza e manifesta instantaneamente a sua presença aos homens:
chamaram-lhe milagre, isto é, o ato admirável por excelência, o ato que
constitui o poder público de Deus.
Àqueles a quem por ventura estas considerações fizerem assomar
aos lábios um frouxo de riso, eu direi que não só pela razão senão que
também pelo coração nós conhecemos a verdade. Ao lado da razão
donde procede a filosofia, há a natureza, que se exprime pela voz do
instinto, do sentimento ou do coração. O sentimento é um eco da razão,
que algumas vezes, por ecoar no mais recôndito da alma, se faz ouvir
melhor que a própria razão. Quando se fala da luz do coração, designa-
-se sem se dar por isso a luz da razão espontânea que nos descobre a
verdade com uma intuição viva e pura, diametralmente oposta aos
processos lentos e laboriosos da razão refletida e do raciocínio.
E aos que, fazendo ostentação soberba da sua ciência, zombam da
crença popular, simples e ingénua, eu direi: príncipes da ciência,
potentados da análise, laureados das academias: nós temos sede e temos
fome; e vós, que sabeis pela análise decompôr a água e conhecer de
que se compõe o trigo, dai-nos uma gota de água, produzi-nos um grão
de trigo.
Porque não atendeis às nossas súplicas? Abatei o vosso orgulho;
confessai a vossa impotência: conhecendo apenas os efeitos, não
conheceis a força que produz o gérmen.