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que a multidão retemperava a fé enquanto não chegava a hora solene
por que milhares de corações ansiavam.
Acabavam de chegar as três crianças, boçais e rudes protagonistas
do espetáculo mais grandioso e extraordinário que ainda me foi dado
presenciar. Aproximava-se o momento augusto. A chuva impertinente
abrandou, e para o norte divisa-se numa nesga de céu, o azul límpido
rompendo as nuvens plúmbeas.
Ao meu espírito já então comovido com o que presenciava, ocorreu
que bem poderia suceder que aquela manhã brumosa, de céu carregado
de nuvens pardacentas, fosse a mis-en-scène de um espetáculo grandioso
que estivesse para dar-se. No relógio o ponteiro marcava vagarosamente
2 horas; e entretanto a multidão aguardava em ansioso recolhimento o
acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé.
Já em algumas almas cândidas surgia o receio de que o facto anunciado
não se produzisse, quando de repente toda aquela imensa multidão à
voz da vidente se agitou num brouhaha significativo de espanto e
assombro levantou a cabeça para o céu, onde milhares de olhos
contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visível a todos, sem a
intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado
de cores várias, num movimento de veloz rotação, parecendo por vezes
desprender-se da abóbada celeste, aproximando-se da terra. Os
espetadores, entreolhando-se, representavam-se, uns aos outros, de cor
amarela, e no horizonte, vermelho-alaranjado, onde quer que os olhos
se fitavam, viam-se fachos de luz esbatida, afetando a forma oval,
parecendo colocados a igual distância, e refletindo-se na terra.
Tal foi o fenómeno surpreendente que todos tiveram ocasião de
observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a
outros a quem o vento adusto do ceticismo crestou a flor da crença,
lançou numa expetativa benévola.
De que se trata, pois?
É fora de dúvida que estamos em presença de factos que comoveram
profundamente as multidões, não hesitando muitos em classificá-los de
milagre.
Sê-lo-á?
Seria temerário afirmá-lo. Todavia é certo que em boa crítica não
podemos nem devemos na apreciação dos factos separar estes das
circunstâncias que os precederam, acompanharam e se lhes seguiram.
Dando de barato que no caso da Fátima tudo se explica por causas
naturais, uma circunstância basta para lhe dar foros de maravilhoso – o
Doc. 25 1917-11-13