132 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
Doc. 25
1917-11-13, Torres Novas
Testemunho de João Maria Lúcio Serra, sobre o dia 13 de outubro de 1917, na
Cova da Iria, dedicado a sua filha, Maria Elisa da Cunha Serra1.
Publ.: DCF, III-1 - Doc. 295
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13 de novembro de 1917
Faz hoje precisamente um mês que dezenas de milhares de pessoas,
atraídas pelas promessas reiteradas de três crianças rudes e boçais, se
reuniram na Charneca de Fátima.
Também eu lá fui; não que me estimulasse o entusiasmo vivo de uma
convicção íntima na realização anunciada de factos portentosos, mas
porque a ir me obrigava a gratidão devida a gentileza penhorante e insigne.
O dia 13 de outubro amanhecera chuvoso e desabrido mas o turbilhão
do vento impetuoso, acompanhado de fortes aguaceiros, não bastou
para vencer a fé sincera de uns e a curiosidade ardente de outros.
Pelo longo caminho encontrei dezenas, centenas, milhares de pessoas
que, açoitadas pelo vendaval tempestuoso, sem um gesto de enfado,
sem uma quebra de ânimo, seguiam pela estrada alagada, em demanda
do sítio onde factos prodigiosos se diz terem-se já dado, e onde outros
deviam neste dia produzir-se. A gravidade e a compostura que em todos
os rostos transluziam, eram garantia segura da crença fervorosa que
impelia muitos, e do respeito que essa crença ingénua e pura a todos
impunha.
Chegado ao teatro dos retumbantes acontecimentos, impressionou-
-me vivamente a enorme multidão, em muitos milhares de pessoas
computada, e que se aglomerava numa ordem, num respeito, numa
compostura que comoviam.
Não podendo romper caminho até junto da famosa carrasqueira,
que parece ter servido como que de trono à Celeste Visão, quedei-me
na estrada em sítio de onde tudo bem se podia observar.
1 Acompanhou o seu pai a Fátima, no dia 13 de outubro de 1917.