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quando as bátegas de água transformaram as estradas poeirentas em
fundos lamaçais e às doçuras do outono sucederam, por um dia, os
aspérrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida à volta
da pequenina árvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para
os guardar como relíquias, ora espraiada pela vasta charneca que a
estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterógenea
concorrência de carros e pessoas atravancou naquele dia memorável,
aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturais, sem temer
que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a
imponência... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança
se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades,
que a compostura da multidão em que superabundavam os campónios
foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a
acolhê-las as demonstrações do mais intenso carinho por parte daquele
povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-
-se a hora do “milagre”, a hora do “sinal sensível”, a hora mística e
suspirada do contacto entre o céu e a terra...
E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante
do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma
obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda
de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora
pré-anunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o
astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar
dançando num bailado violento e convulso, que grande número de
pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores
revestiu sucessivamente a superfície solar...
Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios?
Não curo agora sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é
com a Ciência e com a Igreja...
Avelino de Almeida
Doc. 21 1917-10-29